Kevin
10 de fevereiro de 2024
Me dê um Kevin depois da meia-noite
parte 1
Hedonismo é um conceito tão antigo quanto o troca-troca da antiga Grécia. Um amontado de conceitos, teorias e ideias que, resumidamente, identificam prazer e dor como as únicas motivações possíveis. Enquanto um é perseguido com voracidade, a ideia é se afastar do outro como o Diabo foge da cruz. Mas será que o Diabo foge mesmo da cruz?
Depois de empreendido na antiga Grécia, o conceito se esvazia um pouco dentro da materialidade da vida no capitalismo. Enquanto persegue-se incessantemente o prazer, os tratos sociais são escanteados para seguir-se como um foguete em direção a outros paraísos no corpo. Em “O mal-estar na civilização”, Freud (já ouviu falar dele? Um chato, mas escreve muito bem!) desenvolve sobre o sofrimento e suas causas: nosso próprio corpo, o mundo externo e nossos relacionamentos com outros homens. Outros homens? O que será então de nós – e eu me incluo nessa -, homens gays, quando o efeito das paliativas distrações, gratificações substitutivas e substâncias inebriantes passarem?

Em “Não é o homossexual que é perverso mas a sociedade em que ele vive” (1978), o diretor alemão Rosa Von Prauheim joga o papo sem firula ou enrolação sobre as práticas do homem gay branco da Alemanha nos anos 1970. Usando da revolta, esse sentimento em movimento, que transforma em oposição ao ressentimento, Rosa discorre, com críticas, mas buscando soluções, sobre o sofrimento causado pela homofobia e as manobras que o grupo faz para escorrer entre os dedos da sociedade. Em busca de seu lugar, os homossexuais citados por Rosa se apequenam nas brechas e nos vãos que a sociedade heteronormativa lhes abre: o “submundo”. Não há nenhuma crítica no meu uso de aspas e justifico essa caracterização: mesmo dentro da heteronormatividade encontra-se “submundos”.
E, veja, não há de se analisar desejos descontextualizados. É dentro do contexto social que se entendem as regras e se discorre sobre elas: Rosa movimenta sua revolta em forma de filme com todos os dedos apontados para seus contemporâneos e suas práticas. Parece descabido, desproporcional e até rancoroso à primeira vista, mas ao final dos sessenta e poucos minutos de “Não é o homossexual…” entende-se bem onde está localizado o restinho de ressentimento que se sente em seu discurso: na burguesia e nos coniventes com sua estrutura.
Em busca de passar batido pelos olhos censores da sociedade, segundo Rosa, homossexuais de todas as nacionalidades e épocas, e esse adendo é de minha abusada opinião, se resguardam na máscara social da burguesia e suas práticas escondidas dos olhos da rua. Rosa cita parques, bares, banheiros públicos e madrugadas adentro como formas de despressurização e possibilidade do exercício pleno de seus desejos e vontades. Soa familiar, caro homem gay? Visite todos os parques da cidade depois do anoitecer e veja com os próprios olhos.
Em “Eu sou o monstro que vos fala”, o magnífico (prometi evitar adjetivos, mas quebro aqui minha própria promessa) Paul Preciado diz exatamente “eu não tinha o menor desejo de me tornar o que as crianças da burguesia branca chamavam de normal ou saudável”. É um pouco injusta a comparação, visto que Preciado fala de um lugar de reposicionamento da identidade em oposição à cisgeneridade, mas não parece que o espanhol foi certeiro em desenvolver, dentro de sua própria experiência na Terra, a solução proposta por Rosa Von Praunheim? Fugir da norma e essa perseguição ser o guia motor de sua vivência?
Há algo de incômodo em aceitar e dialogar sobre a posição que Rosa nos coloca? Quer dizer, nos analisa. Rosa afirma algumas vezes que é o próprio homossexual que busca seu apagamento, em detrimento de participar do jogo imposto pela homofobia na sociedade. Olho para qualquer lado, para todos eles, e vejo que, embora na novela, na publicidade, no filme e na revista, o homossexual é, sim, visto como alguém de menor valor. Isso falando do espectro cisgênero, né? Porque o desejo de extermínio do século XXI parece ter sido posicionado na cabeça dos que desafiam o número dois, como travestis e não-binários, boycetas e mulheres trans, todos com um alvo na testa. Não esquecer que, ainda em 2024, o Brasil é o que mais mata pessoas trans no mundo.

Dito responsável por um grande movimento de libertação gay na Alemanha (não posso dizer, não estava lá), quase cinquenta anos depois é perturbador perceber que o cenário que Rosa descreve pouco mudou ou não mudou nada. Aí é a moradia do incômodo. Não pode-se aceitar que um país tão diferente do Brasil, do outro lado do globo, com outras cores e línguas, se aproxime tanto das críticas que pode-se tecer sobre a perpetuação do imaginário burguês pelas mãos dos homossexuais, seja na América Latina, seja na Europa.
Como elaborar outros paraísos na Terra para que, como os hedonistas, persiga-se o prazer, não em oposição ao sofrimento, mas como os dois lados da mesma moeda? Rosa responde, Preciado responde, Oscar Wilde responde, Baco, Apollo, Dionísio… E Kevin.
parte 2
Criada em 2017, um dos mais antigos projetos do complexo Zig tem nome e, como Adele, Madonna, Anitta e Shakira, não tem sobrenome. Kevin. Numa São Paulo pós-PREP, o rapaz gay cisgênero, assim na visão de Preciado como na visão de Rosa, vive na pista da Kevin – e suas primas de mesmo tema, sejamos justos – uma experiência invejável.

Depois de implementada, testada e validade, a PREP dialoga com o universo tangível que a Kevin, o Zig, Rafa e Werik propõem: é a materialização da superação (uau, isso é um pouco forte e determinista) do grande mal que assombrou e matou a geração antes da nossa. A popularidade das ditas “festas de sexo” é congruente com o aperfeiçoamento do protocolo PREP pelo SUS. Lembrando que as taxas de novas transmissões por HIV vem caindo vertiginosamente há cinco anos consecutivos.
Não é o paraíso (ainda), visto que a transmissão de sífilis aumentou proporcionalmente em oposição às transmissões por HIV, mas há de se escurecer que: a) a PREP é um conjunto de protocolos, como testagem frequente. Pode-se entender que o aumento é efeito de uma maior testagem? Não sei, eu estou aqui pra fazer perguntas. Mas não há como negar que, assim como o HIV nos anos 1990, a H1N1 nos anos 2000, e, recentemente, a COVID-19, o Brasil e o SUS dão aula a qualquer sistema público de saúde em como contornar uma pandemia.
É aí que a Kevin sai da rua Álvaro de Carvalho e aterrissa no número 33 da avenida Pacaembu. Depois de debutar no intimamente conhecido por Ziguinho e sua capacidade de 350 pessoas, é no Zig Studio que a festa se acotovelou pela multidão até a grade, e se coloca sem vergonha nas pistas, darkroom, banheiros, corredores e até fumódromo do combo Zig + Fabrique. Seus mais de dois mil rapazes esfregam-se uns nos outros com uma liberdade desenvolvida e uma nova cepa de burguesia. Ei, eu não me retiro de nenhum desses contextos!
Vê-se, pelas paredes e balcões do espaço, lembretes das múltiplas formas de prevenção e testagem para IST’s, assim como discussões bem acaloradas sobre a liberdade e consentimento. Não quero desenhar paraísos, mas sim, uma realidade possível, para agora, não amanhã nem depois, de fuga e ressignificação da culpa. Aquela que Rosa cita entre seus gays alemães dos anos 1970. Festas como a Kevin acontecem há décadas, é claro! Mas há de se reposicionar a experiência-Zig num lugar de privilégio no decorrer dessa História, com H maiúsculo, da experiência homossexual (cisgênera) por todo o globo.
Além de oportunidade pela situação, a Kevin e o Zig merecem seus louros pela trajetória e escolhas de seu percurso. Com um bom staff e serviços, com destaque para Sarah e Igor, gerentes dos espaços de Rafa e Werik, a experiência-Zig não ignora seu espaço no tempo e ainda desafia as imposições feitas à noite da cidade. Numa era de desaparecimento de clubes, o Zig merece palmas por sua expansão e seu constante aprimoramento. Não tem como ignorar as seguidas reformas promovidas nos espaços. Em todos. Às vezes ao mesmo tempo.
A Kevin de 2024 habita esse complexo espaço. Junto com seu corpo fiel de performers, a festa promove o tal espaço possível que citei acima, junto com criadores de conteúdo de filmes de amor forte, que, muitos e não todos – assim como todo e qualquer grupo observado -, desfrutam de práticas sexuais criadas lá na Grécia antiga com maior segurança. Logo, com maior possibilidade de elaboração e ressignificação de suas experiências individuais. Não que haja experiência individual na pista da Kevin, se é que você me entende.

A edição de Carnaval da Kevin ostentou um line-up à altura do feriado. Com a pista do Fabrique ocupada pelo coletivo Odsy, os rapazes (todos) mostraram estar bem alinhados com suas propostas de pesquisa. Justifica-se, assim, o pensamento de “coletivo”, embora cada um traga sua personalidade. Numa festa de duas pistas, é difícil prestar atenção em tudo, mas o back to back de Higashi e Samu foi foda.
Na pista da avenida Pacaembu, Tuxe abriu a pista de um Zig ainda frio, com os ar-condicionados em início de trabalhos. Tuxe não só gosta do que faz – como todos os DJs gostam de gerenciar vibes – como se diverte fazendo. Lembro de uma de suas primeiras Kevin – que eu tenho lembrança, em junho de 2022 – e seu remix de “Invisible Light”, dos Scissor Sisters. Tuxe parece saber brincar bem com a nostalgia em seus sets, invocando hits do início do século como “Toca’s miracle” , dos também alemães – veja só! – do Fragma.
Honrei minha palavra e assisti Bruna e Lívia, do duo From House to Disco, do início ao fim. Habitam ambas as cenas mainstream e underground, como quem sai despreocupado para dar uma volta ao parque e mixam muito. É uma pesquisa que honra clássicos e isso é essencial ao que elas se propõem. Além de terem um ótimo gosto para suas seleções.
Dando uma pausa em sua função de anfitrião-produtor, Rafa Maia assume as pick ups sabendo exatamente quem é o público, que ele e Werik construíram nestes sete anos, e o que tocar para eles. Não vou me alongar em elogios pra não babar ovo do dono da festa, mas sua seleção honra a pista que construíram. Isso diz mais do que qualquer coisa.
Valentina Luz usa e abusa de seu charme e carisma numa pesquisa variada e divertida. Habitante antiga da cidade Noite, Valentina desfila com tracks como “Se ela dança, eu danço”, de Mc Leozinho e não tem medo de ousar em suas escolhas, seja em sua seleção ou mixagem. Poucos dias antes vi seu back 2 back com Danny Banny e a gata sabe se divertir. Valentina parece seguir a mesma regra que eu aplico à noite: levar muito a sério e me divertir muito.
Omoloko. Alguns dias antes, o DJ avisou no Twitter que seu set seria inteiro de Kuduro, ritmo angolano. Ousado. Numa pista às vezes esnobe, Omoloko cumpriu sua promessa e exibiu sua extensa pesquisa. É bonito ver como João fala de seu trabalho, sua pesquisa e sua visão de mundo através da música, encarando seu ofício como uma ponte entre passado e presente para desvendar o futuro a partir da História – também com H maiúsculo – da música. João, sou seu fã.

Já era sete da manhã quando a dupla Fugaz assumiu uma tímida pista, com seus poucos resistentes. Afinal, ainda era o primeiro dia de Carnaval. Com algum senso na cabeça, fui embora. A indelicadeza se repete, né? Estou me guardando para quando o Carnaval chegar. Chegou. Ufa.
Requer ousadia e coragem para ocupar o lugar que o Zig criou para si. E não falo isso do nada: eu estava lá nas primeiras noites em funcionamento do número 190 da rua Álvaro de Carvalho e acompanhei de primeira fila Rafa e Werik prepararem o terreno de seus clubes e constituírem a experiência-Zig. Eu também estive nas primeiras festas que Rafa Maia produziu na cidade, ainda em 2012, ano que me mudei pra cá, no antigo bar Volt. É interessante assistir para onde os olhos de Rafa e Werik apontam.
Foi bom pra você, Kevin? acendo um cigarro.
Tudo de novo no front é um projeto multidisciplinar que investiga a noite paulistana e o centro da cidade com um recorte queer. Acompanhe a página do projeto no Instagram.
Alexandre Mortagua é carioca, Escorpião com ascendente em Touro e gosta de dançar. “Tudo de novo no front” é seu terceiro projeto de longa-metragem. Também é uma extensa pesquisa sobre a noite queer do centro de São Paulo. Escritor, diretor, roteirista e produtor executivo, Alexandre realizou os filmes “Todos nós cinco milhões” (2019), “Ritual na Bahia” (2021) e “Quando o manto fala e o que o manto diz” (2023). Pela Philos, publicou sua estréia na literatura, “Aqui, agora, todo mundo” (2022) e prepara seu novo romance “Anuário” (2025).